Espuma dos dias — Se queres a paz, prepara a guerra. Mas haverá paz após a trégua depois da guerra? Por Federico Giusti

Nota prévia: Afinal, quem ameaça quem? O texto abaixo é, sem dúvida, de máxima importância ao denunciar a deriva belicista e militarista dos nossos políticos, nomeadamente dos governos da UE e do Parlamento Europeu, que, sob falsos argumentos, mostram que nada aprenderam com as duas terríveis grandes guerras mundiais, com centro na Europa, ocorridas no século XX.

O texto fala-nos de “planos de guerra, o serviço militar obrigatório, o rearmamento e os enormes aumentos do gasto militar, que antes eram temas tabu, hoje contam-se entre as prioridades absolutas da classe política europeia, que acredita sem vacilar no valor salvador do rearmamento e da cultura militarista para escapar da decadência da sua economia e da própria civilização”.

A grande pergunta a fazer é a seguinte: tiveram os políticos que agora estão a decidir pela morte da Europa a coragem de defender estes pontos belicistas quando fizeram campanha eleitoral junto daqueles que votaram neles? Claro que não.

Esta é a forma de reduzir a Democracia à arte da manipulação, mas sendo assim perguntamos: Será que os povos europeus merecem estes políticos? Como são escolhidos e quem os escolhe? E já agora onde é que estes são escolhidos pelo Deep State?

 

FT e JM

04/12/2025


Seleção e tradução de Francisco Tavares

4 min de leitura

Se queres a paz, prepara a guerra. Mas haverá paz após a trégua depois da guerra?

Crónica de dias dedicados à preparação da guerra e ao militarismo

Por Federico Giusti

Publicado por  em 1 de Dezembro de 2025 (ver aqui)

Artigo publicado originalmente em World Politics Blog.

 

 

A “paz” prometida passa pelo rearmamento: Berlim acelera o EDIP e as infraestruturas de dupla utilização, Roma e Paris reabrem o dossier do serviço militar (também obrigatório). Entre novas exceções, contratos relâmpago e cultura militarista, a Europa prepara-se para o confronto enquanto o bem-estar e os direitos recuam.

 

Há três notícias dignas de atenção: a primeira diz respeito ao grande rearmamento alemão, a segunda ao retorno ao serviço militar obrigatório, que em breve será discutido em alguns parlamentos, como os da Itália e da Alemanha.

Foi no verão de 2023 que alguns altos comandantes do exército alemão começaram a debater não apenas o projeto de rearmamento, mas também como conduzir a operação Plano Alemanha, o projeto alemão para construir um grande exército capaz de enfrentar uma guerra contra a Rússia. Também nos últimos dias, o Parlamento aprovou o Programa Europeu da Indústria de Defesa (EDIP) com 457 votos a favor, 148 contra e 33 abstenções, com o objetivo de reforçar a base tecnológica e industrial da defesa na Europa e potenciar as suas capacidades defensivas. O EDIP é o que desejavam Enrico Letta [1] e Mario Draghi [2], que atuavam com o objetivo de construir um grande complexo industrial militar comunitário. O programa EDIP prevê uma dotação de 1.500 milhões de euros, dos quais 300 milhões serão destinados a apoiar a Ucrânia, sem esquecer a possibilidade de utilizar os fundos não gastos para outros projetos também militares.

Uma vez votados os atos e regulamentos, passa-se à fase operacional.

Deve-se notar que os que se opõem são os parlamentares da esquerda radical e comunista (mas não todos) e os Patriotas, entre os quais a Liga, que se posicionam abertamente à direita e de forma conservadora. Pelo contrário, entre as forças políticas mais coesas a favor do rearmamento estão os socialistas, incluindo os eurodeputados do Partido Democrata.

Mas voltemos ao ambicioso projeto de rearmamento alemão, objeto de uma investigação revelada detalhadamente por um jornal financeiro americano para criar “uma mentalidade de Guerra Fria”, não sem antes tornar pública uma notícia sem fundamento, a saber, o plano da Rússia de atacar a NATO em 2029.

Estamos a avançar nos preparativos para criar uma grande Alemanha belicista. o gigante alemão da defesa Rheinmetall montou um acampamento noturno para 500 soldados, com dormitórios, serviços, tendas, cozinha de campanha, vigilância com drones e guardas armados, um autêntico exercício para testar as capacidades do exército renano, superando as dificuldades derivadas de anos nos quais o horizonte bélico não figurava entre as prioridades do país. Uma experiência útil também para fins mediáticos. Na Alemanha, tal como noutros países da UE, está a ser debatida a regulamentação legislativa, com o objectivo de a revogar em tudo o que diz respeito ao rearmamento, à construção de novas bases e à logística para uso militar, a fim de preparar licitações com urgência. Mas o principal esforço é construir a cultura indispensável para este rearmamento, uma espécie de reprogramação da mentalidade indispensável para favorecer a guerra, a mudança de mentalidade para se preparar para a inevitabilidade dos conflitos armados.

Entre os planos alemães estão as intervenções em infraestruturas, a reparação e a manutenção da rede viária, das pontes e, em geral, das infraestruturas, obras de modernização que exigirão milhões de euros.

E chegamos à última notícia, a ideia de restabelecer o serviço militar no nosso país, um projeto que une a Itália à Alemanha e à França.

As declarações do ministro Crosetto trazem à luz as verdadeiras intenções do Governo de Meloni, quando admite que “é preciso refletir sobre o número de forças armadas, sobre a reserva que poderíamos implantar em caso de situações de crise”.

Crosetto alcançou o seu primeiro objetivo, o de trazer à luz um tema que até agora era tabu. Nos próximos meses, será decidido se o serviço militar voluntário e não obrigatório será restabelecido. Entretanto, a França fala de 10 meses de serviço militar e a Alemanha está a trabalhar num ambicioso projeto para reforçar o exército. Portanto, avançando rapidamente para um grande plano de rearmamento que também requer tropas mais numerosas, cada país terá de debater no Parlamento as propostas de reorganização com um aumento dos militares em atividade. Se até agora a hipótese mais acreditada era a da reserva segundo o modelo israelita, agora entrou em jogo uma segunda hipótese, a de aumentar o quadro das Forças Armadas recorrendo também ao serviço militar obrigatório em caso de necessidade.

Veremos o conteúdo do projeto de lei que Crosetto apresentará ao Parlamento para a reorganização da defesa, mas o modelo de defesa nascido do exército profissional e não do recrutamento hoje não é adequado para os novos cenários.

Estes factos remetem-nos para o que está a acontecer na Rússia e na Ucrânia. Crosetto tem pelo menos a coragem de revelar o que pensam todos os outros ministros da Defesa da UE, ou seja, que parte do rearmamento consiste também no aumento do número de forças armadas, na aprovação de novas normas e numa cultura generalizada favorável à guerra para “construir um instrumento de defesa para o futuro”. E os planos de guerra, o serviço militar obrigatório, o rearmamento e os enormes aumentos do gasto militar, que antes eram temas tabu, hoje contam-se entre as prioridades absolutas da classe política europeia, que acredita sem vacilar no valor salvador do rearmamento e da cultura militarista para escapar da decadência da sua economia e da própria civilização, que para se definir como tal deve adotar uma aparência militar.

 

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Notas

[1] N.T. Enrico Letta, primeiro-ministro de Itália em 2013-2014, foi fundador do partido Democrata em 2007.

[2] N.T. Mario Draghi, primeiro-ministro de Itália em 2021-2022, foi presidente do Banco de Itália (2006-2011) e do Banco Central Europeu (2011-2019).


O autor: Federico Giusti, delegado da CUB no setor público, colabora com as publicações periódicas Cumpanis, La Citt futura, Lotta Continua e é ativo em temas de direito do trabalho, anticapitalismo e antimilitarismo.

 

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